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Conheça três produções recentes que mostram a história e fazem refletir sobre as dores causadas pelo Holocausto

Por Rogério de Moraes





Grandes filmes já foram realizados abordando o nazismo e o Holocausto, o horror do extermínio de judeus, o absurdo da Alemanha de Hitler. Todos, mesmo os de qualidade cinematográfica duvidosa, são válidos como preservação da memória de um mal que não pode e não deve nunca mais se repetir.

Contudo, sempre me ressenti da escassez de filmes sobre o Holocausto que fossem além da simples exibição ou documentação do mal. Produções que ousassem passsar do simples registro, que se atrevessem a desconstruir o maniqueísmo fácil presente em muitos filmes sobre o tema e que tentassem escarafunchar um pouco mais a fundo.

Não são muitos os que arriscam um olhar mais intrínseco na busca de explicações para aquilo que não devemos esquecer. No entanto, três produções recentes se atreveram ousar e tentar, mesmo sob o risco do equívoco e da polêmica, estimular a reflexão sobre o que aconteceu. Se você ainda se pergunta "como podê?", eis aqui minha dica de três obras que provavelmente não trarão a resposta definitiva, mas que certamente indicarão os caminhos certos para a reflexão e a descoberta de visões mais profundas da origem e disseminação do mal.

Um Homem Bom (Good), dirigido pelo brasileiro Vicente Amorin, traz Viggo Mortensen no papel de um pacato, tímido e bondoso professor universitário. Um humanista convicto contrário à ideologia que começa a se disseminar na Alemanha com a chegada de Hitler ao poder. Quando é convidado a ingressar no partido nazista por conta de um livro seu publicado anos atrás, o faz muito mais por medo do que por convicção. Contudo, ele vai aos poucos, mais por inocência e inércia do que por convicção e atitude, galgando degraus na hierarquia da SS, a polícia política de Hitler. É pela sedução do poder e até mesmo por sua bondade intrínseca que "O Professor", como é conhecido dentro do partido, vai se deixando envolver pela ideologia nazista, encontrando justificativas ingênuas para o mal que se avizinha e cresce a cada dia no ideal de uma nação. O filme tem a imensa qualidade de nos mostrar como muitas pessoas de inteligência aguda e convicções contrárias puderam ser cooptadas pela euforia do nazismo.

O Leitor (The Reader), de Stephen Daldry, tem Kate Winslet no papel de Hanna, uma mulher madura, simples e rude, que se envolve com um garoto muito mais jovem. O filme se passa em flashback, com o garoto da história já homem vivido e experiente relembrando sua aventura juvenil e as consequências pesadas que a descoberta dos segredos de Hanna trouxeram à sua vida. É que Hanna, durante a Segunda Guerra, foi guarda em um campo de concentração nazista. Mas este é apenas o segredo menor que ela reserva. Com uma história cheia de nuances agudamente provocativos, a história nos contrapõe à ideias pré-estabelecidas sobre a participação ativa de parte da população da Alemanha no holocausto, ou sobre a culpa alemã que a história sempre relegará às futuras gerações germânicas. A maneira como Hanna e seu jovem amante reagem a esta culpa e as suas próprias emoções íntimas - como ódio, ressentimento e vergonha - são um combustível poderoso para a reflexão sobre estas questões tão amargas e tão complexas.

A Onda (Die Welle), de Dennis Gansel, se baseia em fatos reais e é dos três filmes o mais contundente e didático na elucidação do mal. Não que apresente respostas prontas, mas nos mostra com uma clareza fina o assombroso da natureza humana diante do poder e da sedução por um ideal, independente de seu conteúdo ou da ausência de qualquer conteúdo. Em uma escola secundária na Alemanha, um professor pergunta a seus alunos se seria possível o Holocausto se repetir naquele país, ao que eles respondem convictamente que não, pois aprenderam com o passado. É então que o mestre tem a ideia de iniciar uma experiência didática para mostrar a eles como é relativamente fácil levar um grupo de pessoas e até uma nação a cometer as mesmas atrocidades do passado. Para isso introduz elementos autocráticos em suas aulas, como a disciplina rígida, a uniformização de todos e mais uma série de elementos que resultarão em uma crescente adesão de todos os integrantes da sala e até de outras turmas. "A Onda", como passará a se autodenominar o grupo, ganhará proporções que extrapolarão a sala de aula e trarão consequências graves. O filme é uma mostra clara de como estão por aí, fáceis e manipuláveis, os elementos necessários para a repetição do horror.

São esses três filmes que põem de lado o maniqueísmo simplista e vão mais adentro na questão do Holocausto. Mais do que simplesmente assistidos, devem ser pensados, pois trazem pistas para o entendimento do absurdo e do horror que foi a Alemanha hitlerista. Pois, como já se disse e muito bem dito, quando alguns criticaram o filme A Queda por humanizar a figura de Hitler: o problema não é humanizar o mal, mas esquecer que o mal é humano.


Quem é o colunista: gordo, ranzinza e de óculos.

O que faz: blogueiro, escritor e metido a crítico de cinema.

Pecado gastronômico: massas.

Melhor lugar do Brasil: qualquer lugar onde estejam meus livros, meus filmes, minhas músicas, meus amigos e minha namorada.

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