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Mal a porta bate, pode sentir o cheiro de rosas no quarto e o toque bruto de Inocêncio nas suas coxas. Gosta dos calos das mãos masculinas e o prazer que deixam marcado na pele. Tem o hábito de contar na última folha do talão de cheques os dias em que está sem ver um homem nu: duzentos e cinqüenta e oito, graças ao desastre de carro que matou o marido. Tem quatro horas para relembrar os seus melhores ângulos e exibi-los ao espelho do teto e a Inocêncio. Separou na noite anterior o melhor sutiã meia-taça e a menor calcinha.
Inocêncio bebe o vinho tinto seco indicado no menu. Ela comemora a temperatura ambiente: vinte graus. Ideal para simular excitação. Esperar que o álcool transforme o colega de viatura em galã é perder tempo, pois já sente a intimidade latejar. Romântica, retardaria o momento de despir a lingerie, mas a precipitação desabotoa o meia-taça, que cai no chão em câmera lenta e ela se arrepia cheia de expectativas.
Revelam-se aos olhos do policial seios grandes. Inocêncio, que nunca esteve diante de tal abundância e tanta iniciativa, recua (inseguro?). Ela deixa a calcinha escorrer pelas pernas grossas até encontrar o carpete, encardido de outros prazeres. Inocêncio reprime a manifestação precoce do seu desejo. Ela se atira aos lençóis de cetim salmão e o traz consigo, ainda vestido. Com a confiança recuperada, ele aborta as preliminares, arranca o uniforme e se concentra na (jura!) satisfação carnal da amante.
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Deveria pelar o aproximar de seus corpos. Deveria haver suor tatuando nucas e abdomens. Mal dançam os quadris nas ondas do colchão de água. Mal encostam-se as bocas urgentes de beijos agressivos. Ele grita, enquanto o tédio dela olha para cima, pensando em marcar o reflexo dos cabelos para sábado.
- O ar condicionado está ligado?
Inocêncio, antes empenhado em gemidos primatas, interrompe as fracas reboladas das nádegas peludas. Ao perceber que o homem poderia desabar em choro, frustrações e posteriores broxadas, ela unha a cintura dele e refaz:
- Não pare agora!
O entusiasmo dá continuidade aos movimentos monótonos, desta vez, mais mecânicos, de Inocêncio. E ela pensa:
- Só falta querer dividir a conta!
Quem é a colunista: Priscila Nicolielo
O que faz: é redatora na TV Bandeirantes. Também escreve para Teatro e Cinema.
Pecado gastronômico: muito queijo parmesão!
Melhor lugar de São Paulo: O apê no Centro da mãe da Vivi no 23º. andar
Música que está ouvindo: Infinito Particular, da Marisa Monte
Para Falar com Priscila: [email protected] ou acesse o blog da autora ou ainda assista a peça Entulho, escrita por ela
Atualizado em 6 Set 2011.